Artigo da seção eventos Expo-Projeção 73 (1973 : São Paulo, SP)

Expo-Projeção 73 (1973 : São Paulo, SP)

Artigo da seção eventos
Artes visuais  
Data de inícioExpo-Projeção 73 (1973 : São Paulo, SP): 18-06-1973 | Data de término: 23-06-1973
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Instituição de realização: Espaço Grife (São Paulo, SP)
Tipo do evento: exposicao | Classificação do evento: Coletiva

Histórico

Mostra organizada por Aracy Amaral (1930) e realizada em junho de 1973, na sede do Grupo de Realizadores Independentes de Filmes Experimentais (Grife), em São Paulo. Trata-se de uma das primeiras iniciativas curatoriais no país que reúne obras audiovisuais e obras sonoras. Produções desconhecidas do público traduzem com imagens e sons a multiplicidade temática e estética da cena cultural da época. A mostra exibe a produção de 42 autores que formam a primeira geração de artistas brasileiros que operam com linguagens multimídias, especialmente com o vídeo.

A exposição reúne duas gerações importantes: artistas com trajetória consolidada e experiência com abstração geométrica – como Hélio Oiticica (1937-1980), Décio Pignatari (1927-2012) e Lygia Pape (1927-2004) – e uma nova geração que presencia o concretismo e o neoconcretismo e começa experimentações com a pop art, o minimalismo, a arte conceitual e a arte povera. Desse grupo, fazem parte Artur Barrio (1945), Carlos Vergara (1941) e Claudio Tozzi (1944)

Credita-se à Aracy Amaral a iniciativa de aproximar essas duas gerações e expor a qualidade da produção audiovisual brasileira, ainda incipiente no país. Diferentemente de mostras tradicionais, a curadora propõe expandir e questionar as fronteiras da arte visual brasileira.

A produção artística brasileira na década de 1970 acelera o processo de interdisciplinaridade – a fotografia aproxima-se da pintura, como na obra de Miguel Rio Branco (1946) – e questiona a ideia de registro na performance. Há uma preocupação da curadoria em criar meios de exposição e crítica de uma produção artística que investiga novas percepções e criações da imagem por meio do audiovisual e do som e questiona ou amplia a noção de registro e performance na prática artística brasileira. 

Hélio Oiticica apresenta a obra Neyrótica (1973), um audiovisual contendo 80 slides dos “garotos de ouro de Babylonests”. Segundo o texto do artista presente no catálogo da exposição:

NÃONARRAÇÃO porque 
não é estorinha ou 
imagens de fotografia pura 
ou algo detestável como "audio-visual" 
porque NARRAÇÃO seria o q  já foi 
e já não é mais há tempos: 
tudo o q de esteticamente retrógrado existe 
tende a reaver representação narrativa

E complementa:

NÃONARRAÇÃO é NÃODISCURSO
NÃO FOTOGRAFIA "ARTÍSTICA". 
NÃO "AUDIO-VISUAL": trilha de som 
é continuidade pontuada de 
interferência acidental improvisada 
na estrutura gravada do rádio que é
juntada à sequência projetada de slides
de modo acidental e não como sublinhamento da mesma
– é play-invenção.

A Super-8, em especial, passa a ser uma mídia bastante utilizada pelos artistas brasileiros no início da década de 1970. Além de proporcionar a experimentação de uma nova poética, o equipamento apresenta baixo custo e oferece a possibilidade de aproximação de determinadas pesquisas pictóricas do universo do cinema. O depoimento de Lygia Pape para o catálogo da mostra é elucidativo desse momento: “O S8 é realmente uma nova linguagem, principalmente quando também está livre de um envolvimento mais comercial com o sistema. É a única fonte de pesquisa, a pedra de toque da invenção, hoje”. A característica ágil da câmera Super-8 permite o registro imediato e livre dos esquemas tradicionais de montagem – e a exposição torna clara essa nova qualidade de aparição e pesquisa da imagem no meio das artes visuais.
 
Outro ponto ressaltado no texto da curadora é o caráter não comercial das obras, possivelmente pelo fato de serem um elemento novo e estranho ao mercado que tem pintura e escultura como desígnios principais do que se chama arte. 
Os legados desta mostra são o caráter do novo, a proximidade do artista com o meio ambiente, as ações ordinárias pertencentes à ordem do antiespetáculo, ou seja, “o próprio mundo se transformando em museu”1. Além disso, o destaque da televisão no meio cultural do país e sua linguagem eletrônica e midiática servem como proposta de trabalho e material de crítica para esses artistas, visto que há, em certa medida, preocupação política de crítica aos meios de informação e à sociedade capitalista.

Expo-projeção 73 é um marco no histórico das exposições realizadas no Brasil pelo caráter de ineditismo e pela forma como apresenta e demarca as primeiras iniciativas artísticas voltadas para o estudo da imagem em movimento.

Notas

1 No texto do catálogo, Aracy Amaral retoma a frase do crítico norte-americano Harold Rosenberg (1906-1978).

Ficha Técnica do evento Expo-Projeção 73 (1973 : São Paulo, SP):

Fontes de pesquisa (5)

  • AMARAL, Aracy. Algumas idéias em torno à EXPO-PROJEÇÃO 73. Expoprojeção73, São Paulo, 1973. Catálogo da exposição. Disponível em: < http://www.expoprojecao.com.br/_pdf/expo_catalogo_73.pdf >. Acesso em: 21 jul. 2017.
  • CANONGIA, Ligia. Quasi cinema: cinema de artista no Brasil, 1970-80. Rio de Janeiro: Funarte, 1981. (Col. Arte Brasileira Contemporânea).
  • COCCHIARALE, Fernando; PARENTE, André. Filmes de artista: Brasil, 1965-80. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.
  • MACIEL, Katia. Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.
  • PONTUAL, Roberto. Arte/Brasil/hoje: 50 anos depois. São Paulo: Collection, 1973.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • EXPO-PROJEÇÃO 73 (1973 : São Paulo, SP). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento221139/expo-projecao-73-1973-sao-paulo-sp>. Acesso em: 15 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7